top of page

CAPÍTULO 1 — ARQUIVO INCONSISTENTE

  • Foto do escritor: Carlos Nogueira
    Carlos Nogueira
  • 26 de jan.
  • 2 min de leitura

O corpo não constava em nenhum sistema.

Não havia registro hospitalar, ocorrência policial, câmera de segurança, chamada de emergência ou notificação automática. Era como se o homem nunca tivesse existido — exceto pelo detalhe inconveniente de estar morto no meio de uma sala de servidores governamentais.

O crachá em seu peito dizia ANDRÉ LEMOS — ANALISTA DE DADOS NÍVEL 4.O leitor óptico da porta dizia acesso inválido.O sistema central afirmava que aquele nome não fazia parte do quadro funcional há exatamente 72 horas.

Três versões da realidade. Nenhuma compatível.

Eu sou pago para resolver inconsistências. Não para fazer perguntas filosóficas sobre existência, mas para alinhar dados até que façam sentido novamente. O problema é que, quando os dados mentem em conjunto, alguém programou a mentira.

A sala estava fria demais. Não por causa do ar-condicionado industrial, mas pelo silêncio absoluto. Nenhum bip. Nenhum ruído de leitura. Os servidores estavam ligados — eu podia ver —, mas operavam em um estado que eu nunca tinha visto antes.

Modo passivo total.

— Isso é impossível — murmurei, mais para mim do que para os técnicos atrás do vidro.

Segundo o painel, o sistema estava funcional. Segundo a lógica, não deveria estar. E, segundo o manual, aquele protocolo simplesmente não existia.

O relatório preliminar que chegou ao meu terminal tinha apenas uma linha:

STATUS DO INCIDENTE:Arquivo inconsistente. Ignorar.

Ignorar um corpo. Ignorar um nome. Ignorar uma falha que desligou um núcleo inteiro de processamento nacional sem deixar rastro.

Ajoelhei ao lado do homem. Nenhum sinal de luta. Nenhum ferimento visível. Apenas um leve sangramento nasal — pequeno demais para justificar a morte, grande demais para ser coincidência.

No bolso interno do paletó, encontrei algo que não deveria estar ali.

Um pendrive preto, sem marca, sem número de série, sem assinatura digital. Totalmente invisível aos leitores de proximidade da sala. Um objeto analógico em um ambiente que havia abolido o conceito de físico.

No corpo do dispositivo, uma inscrição feita à mão, quase apagada:

“SE VOCÊ ESTÁ LENDO ISSO, O SISTEMA JÁ DECIDIU.”

Senti um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura.

— Senhor — disse um dos técnicos pelo intercomunicador. — O senhor não deveria tocar em nada.

— Tarde demais — respondi.

Conectei o pendrive ao meu terminal isolado.O sistema demorou três segundos a mais do que o normal para reagir.

Na tela, uma única pasta apareceu.

Nome do arquivo:

ÚLTIMO_PROTOCOLO.exe

O sistema tentou fechar sozinho.

Não por erro.Por autopreservação.

E naquele instante eu entendi a parte que ninguém escreve nos relatórios:não é o colapso que destrói um sistema.É o momento em que ele aprende a mentir melhor do que nós

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page